A morte do cachorro no Carrefour faz a gente pensar em que tipo coisa nos transformamos



Em meio a uma transição presidencial polêmica, os noticiários de todo o país foram obrigados a se curvar a um vira-latas. O caso do cachorro agredido e morto nos arredores do Carrefour de Osasco, dividiu espaço de capa com a reportagem sobre o também finado Ministério do Trabalho. A polêmica se deu depois que dois vídeos mostrando o segurança do supermercado com uma barra de ferro perseguindo o animal e, outro, com cenas do bichinho sangrando viralizaram na rede.

Milhares de manifestações virtuais e protestos no local provocaram a imprensa a discutir o caso com criminalistas e psicólogos. Embora as imagens não tenham registro do ato em si, a Polícia Civil já confirmou a agressão e que ela pode ter colaborado ou até causado a morte do cachorro. E a suspeita de envenenamento também está sendo analisada. ONGs, militantes dos direitos dos animais, e até o Carrefour segundo nota publicada na capa de sua loja virtual, dizem estar mobilizados para que a justiça seja feita.

Enquanto isso, na desconhecida mineira Dores do Indaiá, um militar também virou manchete por ser suspeito de jogar um gato vivo em uma lagoa para um jacaré comer. Já o meu vizinho comemora a vitória de seu time ou o resultado das eleições atando foguetes em seu pastor alemão (denunciado, ainda sem solução). Agressões pavorosas, feitas a seres indefesos, que revoltam até os não muito afeitos ao mundo animal. Acarretam repulsa pois jogam na nossa cara a crueldade que habita, sim, os humanos.  Dá medo pensar que muitos moram ao nosso lado. Mas precisamos encarar a reflexão que é bem mais ampla que a abordagem dada aos fatos. Vejo nós, do substantivo ao pronome, nesse contexto da violência e de sua repercussão. Problematizo com duas perguntas simples. A primeira é: do que se trata a selvageria humana que vitimiza os bichos?

Para Marcelo Nassaro, conselheiro do Conselho Nacional do Meio Ambiente e autor do livro “Maus Tratos aos Animais e a Violência contra Pessoas”, a violência contra bichos não é um ato isolado. Ela se trata de um desdobramento do processo de desrespeito urbano de modo geral. Pode até ser doença, individual ou social. Por isso, o autor alerta sobre o perigo da naturalização desse comportamento: “À medida que a sociedade percebe que a brutalidade contra animais é a porta para agressões a humanos, mais atenção deve dar a gente que esfola seus gatos, arrasta cães no asfalto ou tortura bois no litoral de Santa Catarina”. O problema é ser isso hábito antigo e culturalmente arraigado. Manifesta-se pequena como no repasse por gerações da cantiga infantil — nem por nisso inocente — atirei o pau no gato. Ou nas lembranças das “brincadeiras” de explodir um sapo colocando cigarro na boca dele ou cortando rabinhos de lagartixas, como ainda é costume no interior.

Felizmente, essas incontáveis situações de violência têm tido até bastante divulgação. Provocada por uma maior conscientização e, também, porque o tema repercute bem no mundo virtual. Likes e compartilhamentos são moeda.  Quem nunca compartilhou uma foto de bichano fofo ou comentou com textão post sobre maus tratos? Pois é, empresas sabem disso e é melhor a gente entender os bastidores do mercado informativo já que isso interfere diretamente em nossas vidas. Bom, apesar disso, considero esse espaço de luta um avanço. Vejo o ativismo como uma forma saudável de salvação até para gente. Não tenho perfil para lavar cachorro de rua em um sábado de manhã. Admiro quem o faça. Levanto a bandeira como posso. Participo de ações e grupos de debate. E defendo irrestritamente todos os direitos dos animais. Isso leva à minha segunda pergunta: em que transformamos os nossos bichos?

Antes que me julguem, faço eu mesma o papel autodenunciativo de apresentar minha família não humana: Frida (cachorro), Filó (gato) e Pluminha (periquito).  No meu caso, todos vieram em momentos vazios e sofridos. A falta de um amor, o sonho da maternidade e o desejo de voar. Escolhidos conscientemente e deslocados para lugares, por vezes, distantes de sua natureza. Frida se joga na terra para tirar o cheiro do xampu depois do banho. Filó prefere cabeça de calango à patê industrializado. Pluminha matou toda a família quando uma doença contagiou a gaiola.

É que a domesticação dos bichos não é tão simples. Em sua forma organizada e utilitária, começou há pelo menos 12 mil anos. Contudo, recentemente, transformamos animais em companheiros. Isso tem um lado que pode ser ruim. Para os dois lados da relação. O artigo “Bem-Estar de cães e gatos”, publicado pela veterinária da UFMG, Renata Maria Albergaria Amara, mostra que nos últimos 25 anos, veterinários tem estudado problemas e doenças comportamentais nos pets por causa da mudança do papel deles na sociedade. Arrepiei de culpa. Depois que tive filho, Fridoca andou cabisbaixa, operou de infecção e anda comendo bicos e fazendo xixi pela casa. Filó precisou ser abrigada na casa da minha mãe e ainda não voltou. Pluminha? Tadinho! Nunca mais comeu na minha mão e vive batendo as asas na portinhola do viveiro. Daí leio o artigo de Amara e me sinto ainda pior: “Muitas vezes o proprietário não sabe qual é o comportamento canino e felino normal e os tratam como membros da família. Dessa maneira, pode-se desenvolver distúrbios comportamentais nesses animais, como atitudes animais com posturas humanas. O antropomorfismo pode ser benéfico em alguns casos ou mesmo prejudicar o animal e dono em outros. Assim, o bom senso deve predominar e o conforto e bem-estar devem ser sempre avaliados”. Sei que houve uma recolocação de prioridades na minha vida e os bichinhos não tem culpa. Não existe maldade. Há sofrimento. Existe gente lidando com isso melhor que eu. Apenas ainda não alcancei o tal bom senso e morro de tristeza.

A intriga acerca do tema é antiga. Darwin dedicou boa parte de seu tempo na investigação do que ele definiu como Síndrome da Domesticação. Para ele, a indução a um ambiente menos hostil e, com isso, menos desafiador, poderia ter provocado alterações genéticas e de comportamento. Depois de séculos domesticados, lobos teriam presas e orelhas menores, além da capacidade craniana reduzida, comparados com os parentes selvagens, concluiu ele em uma pesquisa. Nesse sentido, pode-se dizer então, que fora de seu habitat natural há milhares de anos, cães e gatos urbanos perderam parte da capacidade de defesa. O que torna casos como o do cachorro do Carrefour, gato-isca em Dores, cão foguete e tantos outros ainda mais perversos.

Embora óbvio, é pertinente lembrar que o abandono e os maus tratos em animais são crimes descritos na Lei de Crimes ambientais. As punições podem ser inclusive a prisão do autor. Nunca vi uma pessoa presa por isso. Se o Ministério do Meio ambiente também morrer vai ficar ainda mais difícil defender a causa. Nosso papel como cidadãos é manter firme vigilância a fim de ser porta-voz da segurança dos animais quem nem escolheram estar em cidades. Vislumbro na denúncia, oficial e virtual, o mais potente meio de defesa.

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