Kondzilla defende ‘filtro de palavrão’ no funk e diz que MCs ‘se deixaram seduzir’ por duetos com sertanejos



A poucos instantes foi ocorreu a postagem através do link do: G1, da notícia “Kondzilla defende ‘filtro de palavrão’ no funk e diz que MCs ‘se deixaram seduzir’ por duetos com sertanejos”

De acordo com o informado através do portal G1:
Diretor e empresário de funk conta como Fátima Bernardes o ajudou a ver potencial do funk ‘light’ e diz que duetos e algoritmo do YouTube fizeram diminuir acessos a seu canal. Kondzilla é o apelido e o nome da empresa criada por Konrad Dantas, 30 anos
Divulgação
Kondzilla não está parado. Em uma sala da nova sede de sua empresa, na Zona Leste de SP, o empresário fala de seus movimentos: a expansão das atividades, bem além de clipes de funk, a queda das cifras no YouTube, à qual faz ressalvas, e o abraço na periferia em novos projetos.
Em 2017, o G1 mostrou como Konrad Dantas tinha emplacado o maior canal do YouTube do Brasil. Ele continua líder com 50 milhões de seguidores, mas o cenário é mais complexo, com outros atores em SP e pelo Brasil aparecendo. O dono da Kondzilla está atento, e tem muito a dizer sobre:
Filtro no funk – Como Fátima Bernardes mudou o funk; por que Kondzilla defende seu ‘filtro de palavrões’, discorda do seu próprio CEO e vê melancolia na ousadia.
Motivos da queda – Kondzilla diz que MCs “se deixaram seduzir” por duetos com sertanejo e arrocha. Empresário de SP acredita que serviços de streaming dão ‘olhar editorial’ especial ao Rio e que algoritmos tiram prioridade do seu canal
Queda do YouTube? – Kond diz que o YouTube está perdendo audiência de música e aposta que será difícil igualarem suas marcas de 1 bilhão de views em um só clipe
Cultura da periferia – Ele reclama que funk não é visto como cultura, pede por mais ‘100 Kondzillas’ e admite ‘renúncia’ com filtro, mas reafirma importância da decisão
Leia abaixo a entrevista dividida nestes quatro temas:
1 – FILTRO NO FUNK
Como Fátima Bernardes mudou a história do funk; por que Kondzilla defende seu ‘filtro de palavrões’; como ele vê melancolia na ousadia.
G1 – Por que você decidiu contratar diretores de marketing e um CEO (executivo-chefe) para a Kondzilla no ano passado?
Eu precisava focar no lado artístico, e sonhava em trabalhar com esses profissionais. Queria buscar novos mercados. Distribuição de música, entretenimento, audiovisual, mídia: hoje a gente tem um portal e compete por verba de grandes anunciantes. Isso é importante, pois o dinheiro está em todo lugar. Imagina se eu ficasse só dirigindo clipe?
G1 – Em 2017 vocês passaram a ‘filtrar’ palavrões nas músicas que aparecem no canal e apresentar as letras em versão ‘light’. Algumas pessoas avaliaram que ajuda com as marcas, mas pode descaracterizar a linguagem. Esse é um desafio?
Discordo 200%, porque na verdade esse foi o motivo do sucesso. Dos nossos 10 vídeos de mais sucesso, todos têm o filtro. “Olha a explosão”, do Kevinho. “Bum bum tam tam” do Fioti, “Bumbum granada” do Zaac e Jerry. A primeira música que foi discutida e decidida foi do G15 (“Deu onda”).
G1 – Como foi a decisão?
“‘Baile de favela” tinha um palavrão no refrão. O MC João foi na Fátima Bernardes e ela falou: ‘Nossa, parabéns, incrível. Mas se você não falasse aquela palavrinha, sua música ia mais longe.'”
Na época a gente pensava: será que alguma música algum dia vai superar “Baile de Favela”? Tinha sido a primeira a dar 100 milhões de views.
Quando ouvi a Fátima, pensei: “Faz sentido”. Em setembro de 2016, a gente tinha 6 milhões de inscritos no canal. Eu achava que tinha esse teto para a audiência do funk, pois no Facebook os maiores MCs tinham 6 milhões de likes. Mas pensava: “Como a gente faz para romper essa bolha e alcançar um território maior?”
Depois que tomamos a decisão, a gente passou de 6 milhões em 2016 para 22 milhões de inscritos em 2017. Hoje deve ter mais de 40 vídeos com mais de 100 milhões. Do jeito que vocês colocaram, parece que foi um erro. E para mim essa foi a decisão que fez o funk chegar onde está hoje. Chegou a ter 22 funks no top 50.
MC João, voz de ‘Baile de favela’, na Av. Conceição, na Zona Norte, onde fica a casa da produtora onde gravou a música
Rodrigo Ortega / G1
G1 – Mas o próprio Fabio [Trevisan, CEO da Kondzilla] falou que a escolha ajuda na parte comercial e a atrair público, mas também a perder parte dele . Ainda mais neste momento de funk ousadia.
Aí é que está, essa escolha só teve ganho, não teve perda. O funk só ganhou com isso.
Tem a questão da intenção. Dá para ter intenção [sexual] sem falar palavrão. Tem muita canção que é assim. E essas são as que tem mais de 300 milhões de visualizações. São os artistas que fazem turnê internacional. Isso é que eu provoco de a turma fazer.
Porque tem isso em outros gêneros também. A do Luan, “Vamo acordar esse prédio”, de que ele está falando? Aquela “sabe porque eu não te largo, não sei o que lá e ainda põe leite condensado”, do que fala?
G1 – Mas isso é uma avaliação de algumas pessoas, inclusive o Fabio, de que mudar a linguagem tem ganhos, mas também uma perda.
Eu discordo de todo mundo que falou isso. Várias pessoas que falaram se beneficiaram disso.
G1 – Os funks mais tocados no Spotify hoje, do Kevin o Chris e PK, são bem explícitos. Você vê uma força nesse ‘funk putaria’, com letras que talvez não entrassem na Kondzilla?
Não é o funk putaria que é forte, é o sexo que é algo primitivo na gente. Mas eu li em uma matéria que as músicas mais consumidas no Spotify são todas melancólicas. Se você pegar várias dessas músicas, grande parte é acorde menor com batida agressiva.
G1 – Mesmo os funks de ousadia? Eu penso em ‘Parado no bailão’, por exemplo, em que o cara está triste lá no baile.
Sim.
G1 – Você vê um fundo de melancolia no funk hoje?
Não sou eu que vejo, é o Spotify.
G1 – Sim, mas aí talvez eles estivessem falando de coisas tipo Lana Del Rey. Mesmo nas músicas do ‘funk putaria’ você vê alguma coisa sombria?
Eu queria te fazer uma provocação. As que fazem mais sucesso, ouça lá as características e me fala.
O produtor de vídeos de funk Konrad Dantas, o Kondzilla
Reprodução/Facebook/Kondzilla
2 – MOTIVOS DA QUEDA
Kondzilla diz que MCs “se deixaram seduzir” por duetos, que serviços de streaming dão ‘olhar editorial’ especial ao Rio e que algoritmos tiram prioridade do seu canal
G1 – A Kondzilla já teve mais de 20 músicas no top 100 semanal do YouTube, hoje tem bem menos. A que, então, você atribui esta queda?
Em 2018 a indústria da música viu que boa parte do top 50 era funk. As gravadoras estavam de fora disso. Então muitas oportunidades surgiram e todo mundo deixou se seduzir.
G1 – Você diz pelo fato de muita gente começar a lançar clipes nos seus próprios canais?
Não, nos próprios canais sempre aconteceu. O nosso trabalho sempre foi de revelar nossos artistas. Se você pegar os 14 clipes mais vistos do nosso canal, só 2 já eram de MCs já conhecidos.. Kevinho, Fioti, G15, João, essa turma era toda desconhecida.
G1- Mas então o que foi essa sedução por esquema de gravadora?
É porque aí vem galera de outros gêneros. Arrocha, sertanejo, forró, que também bombam. E querem fazer um dueto. Querem fazer um “cross” de público, de audiência.
G1 – Você acha que estes duetos tiraram espaço do funk?
Não, eu acho que muitos artistas começaram a fazer outras músicas que não eram funk. Muitos artistas. Muito dueto.
G1 – E o impacto do crescimento de cenas de fora de São Paulo? O funk do Rio está bem mais forte hoje.
Aí tem um olhar editorial. Playlists e destaque para as canções.
G1 – Você acha que existe esse olhar…
Acho não, eu tenho certeza. Onde estão as gravadoras?
G1- No Rio. Você acha que o fato de estarem na cidade facilita para o funk carioca?
Se facilita não sei, mas se você pegar as maiores playlists das principais plataformas, é uma escolha editorial ter as canções ali. É só olhar as músicas de outros lugares. Minas Gerais tem uma cena super forte, vários artistas estourados. Quantos artistas têm de Minas lá?
G1 – Tem gente do Rio, como Ludmilla e Anitta, de gravadora. Mas há muitos do ‘underground’. Até para o Kevin o Chris facilita o fato de ser do Rio?
Não, é o fato de ele ser independente. É que toda cena tem um acelerador. Alguém quer ajudar o primeiro colocado? O primeiro colocado não precisa de ajuda de ninguém. E o segundo, terceiro, quarto? O funk de SP, quando estava se estruturando, teve mais [ajuda], e hoje já tem estrutura mais sólida.
G1 – Mas o top 100 do YouTube não tem olhar editorial [a lista não é escolhida por editores, mas só uma compilação dos vídeos mais tocados].
Se não tem olhar editorial, se é o algoritmo, quem é que desenvolve o “machine learning” para o algoritmo entender e sugerir [vídeos no YouTube]?
G1 – Você acha que as plataformas passaram a dar prioridade para outras coisas por considerar que a Kondzilla já é consolidada?
Não tenho dúvida. Inclusive tenho dados disso. [De que passamos a ser] menos sugeridos. Eu tenho a origem do tráfico. No final dos meus conteúdos, a plataforma sugere vídeos de outros canais. Por quê? Porque o público já me conhece.
G1 – Mas a audiência total diminuiu. Não só a presença nas paradas. De um bilhão por mês para 500 milhões por mês.
Beleza, um bilhão por mês quando eu só era diretor de clipe. Era 2017. Eu tinha a companhia inteira só focada em fazer clipe. Agora sou empresário dos artistas, tenho série do Netflix, artistas performam no Spotify. Você pega eles antes e depois da minha gestão, a audiência. Kevinho, Kekel, vários outros.
3 – QUEDA DO YOUTUBE?
Kond diz que o YouTube está perdendo audiência de música e aposta que será difícil igualarem suas marcas de 1 bilhão de views em um só clipe
G1 – Você acha que o mercado do funk está mais complexo, com mais desafios?
Está mais aquecido. Mas não de agora.
“O digital trouxe essa facilidade, que acaba virando também uma dificuldade. Porque tem um cara talentoso lá no interior não sei de onde com um computadorzinho que também pode fazer uma baita música. ”
Você mesmo fez uma matéria com o Fioti, mostrando como ele fez a produção do “Bum Bum Tam Tam”. Ele precisou de um baita estúdio, uma mesa não sei quantos mil canais, que custa não sei quantos mil dólares?
Foi o único vídeo do Brasil com um bilhão de visualizações. Hoje sou empresário do Fioti. E do Kevinho, que está chegando a um bilhão [com “Olha a explosão”]. A divisão da audiência vai fazer com que não tenha a entrega de um bilhão de views.
Veja como foi criado ‘Bum bum tam tam’, o funk mais ouvido da história do YouTube
G1 – Acha que depois desses dois vai ser…
… cada vez mais difícil [chegar a 1 bilhão]. Se você pegar os vídeos que mais dão audiência, em 2017 Zé Neto e Cristiano davam 44 milhões numa semana. O vídeo mais visto hoje no Brasil é 20 milhões na semana. A plataforma diminuiu a audiência, não o Kondzilla. Agora tem Spotify, Deezer, Tidal, Facebook Music…
G1 – Mas neste mesmo período, houve canais que cresceram, como a GR6.
Cresceram, mas como a média Kondzilla? Uma música hoje consegue algo como o Kevinho, 100 milhões em 28 dias? Mudou o comportamento. Antes tinha o Facebook como arma, como comportamento a nosso favor, com compartilhamento.
Hoje é Instagram, ninguém compartilha nada, não tem link, você não posta no feed o que você gostou. Você posta foto sua. Essas coisas vão acontecendo e você tem que ir se adaptando ao mercado.
4 – CULTURA DA PERIFERIA
Ele reclama que funk não é visto como cultura e diz que quer dar fala periferia. Kond espera por mais ‘100 Kondzillas’ e admite ‘renúncia’ com filtro, mas reafirma importância
G1 – No trailer de “Sintonia” [série que Kondzilla vai estrear na Netflix] alguém diz: “Lá fora está todo mundo ‘matar nós’. E nossa luta é contra o sistema”. Por quê?
São todos os sistemas. É selva. Isso é atual e atemporal. Acho que agora a periferia, através do digital, tem força para opinar, expor, botar o dedo na ferida, falar suas verdades, lutar por seus valores. Antes não.
G1 – Mas você vê o funk mais atacado hoje?
Isso sempre aconteceu. Qualquer movimento cultural de origem marginal, periférica, incomoda – hip hop nos EUA, funk no Rio, samba, capoeira.
Vi uma entrevista do Paulo Coelho no Roda Viva, falando que isso incomoda porque as pessoas estão celebrando, alegres, e a elite não quer ver isso acontecer. E falou uma frase que me marcou muito: a alegria é algo contagiante.
G1 – Hoje em dia, até no ‘Poesia Acústica’, que é mais leve, se fala de Rennan da Penha [DJ do Baile da Gaiola, no Rio, cuja prisão gera protestos de artistas] e de ’80 tiros’. Essa tensão tem se refletido no seu trabalho?
Nosso novo portal [de conteúdos além de clipes] é justamente para isso. A gente fez um conteúdo sobre o Rennan que já tinha filmado antes da prisão. Foi muito legal para dar um lugar de fala para ele nesse momento.
O que a gente quer fazer não é dar a mensagem, mas potencializar a fala das pessoas. É você que vai falar, eu só vou dar a estrutura. Empreendedorismo, educação sexual, educação financeira, negritude, diversidade, educação tradicional, dança, funk, bastidores de clipe. Tudo que envolve o jovem de favela.
G1 – Mas quando você abre o microfone, coisas ali podem não ser bem vistas por marcas patrocinadoras. É sobre esse dilema que eu queria saber.
O grande trabalho da Kondzilla, se pudesse definir em uma frase, é trabalhar para dar prestígio para a galera de favela. Quando você fala de cultura urbana, fala de EUA e Nova York. Mas tem a cultura urbana do Brasil, de SP. Por que a cultura urbana de SP não tem um prestígio, não é considerada uma cultura? Esse é o nosso trabalho.
A gente fez isso com a música, e entendeu que era porta de entrada para falar com o jovem de favela. Você acha que eu, como diretor de videoclipe, despertei em outras pessoas o interesse em fazer clipes de funk? É isso que vai acontecer. Eu quero que tenha 10, 20, 50, 100 Kondzillas por aí.
G1 – Um ídolo hoje na favela lá na minha cidade, BH, é o MC Rick, com letras cabeludas, com palavrões. Ele precisa do filtro?
Acho que não existe certo e errado, existe construção de carreira. Eu não conheço a história de vida dele. Mas acho que hoje faz sentido para ele fazer isso. Tem que ser uma etapa, não uma meta. Ele vai alcançar essa etapa, e vai sonhar com outras coisas.
“E aí ele vai ter que renunciar a algumas coisas para conquistar outras. Ou a Anitta nunca renunciou a nada? Ou eu, o Kekel, o Kevinho…”
O cara está ganhando um baita dinheiro, reconhecimento, transformou a vida dele. Você acha que depois ele vai atrás de que? Prestígio. Ele quer aparecer no Ding Dong do Faustão, quer aparecer no Top 50. O artista tem a vaidade dele.
G1 – Como você falou de renúncia, isso dá a entender que existe um ganho e uma perda, então.
Não tenho dúvida. Existe um consumo desse tipo de conteúdo. Mas acha que se tivesse só putaria [no canal], acha que o funk seria um dos maiores movimentos do Brasil hoje? Acho que não.
Janela de contratações do funk
Divulgação e Arte G1 / Diana Yukari

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