Os impactos da premissa de que mulheres sem filhos ‘não têm vida fora do trabalho’



A poucos instantes foi publicado através do link do: HuffPost, do artigo “Os impactos da premissa de que mulheres sem filhos ‘não têm vida fora do trabalho'”

De acordo com o veiculado através do site HuffPost: Alguns gerentes e colegas pensam que pessoas solteiras não têm vida fora do trabalho e não merecem um aumento salarial. 

Quando eu estava no início de minha carreira profissional, um gerente nos disse casualmente durante uma reunião que uma razão por que não íamos ganhar aumentos nem folgas remuneradas era porque não tínhamos filhos para sustentar.

Levei anos para entender como aquela afirmação era chocante, inapropriada e antiprofissional. Na época, ninguém contestou o gerente. A reunião seguiu adiante. Havia colegas homens e mulheres presentes, e que eu saiba, todos tínhamos pessoas importantes em nossas vidas.

Existe vida fora do trabalho quando se é solteira?

Como muitas de minhas colegas na época, eu era solteira e sem filhos. Aquele incidente foi a primeira vez que me deparei com o que Bella DePaulo descreve como “antissolteirismo” – ou seja, discriminação contra pessoas solteiras. Cientista social e autora do livro Singles Out: How Singles Are Stereotyped, Stigmatized, and Ignored, and Still Live Happily Ever After (Singles Out: Como solteiros são estereotipados, estigmatizados e ignorados, e ainda vivem felizes para sempre, em tradução livre), DePaulo define o antissolteirismo como a estigmatização e discriminação contra pessoas solteiras.

Aquele gerente estava fazendo uma suposição sobre meu valor e minhas necessidades monetárias. Não sou a única profissional não casada e sem filhos com quem isso já aconteceu – várias leitoras já me contaram suas próprias histórias. Sophie, que trabalhava para uma ONG, contou que “sempre esperavam que eu ficasse no trabalho até tarde e participasse de eventos à noite, porque minha chefe ‘tinha dois filhos pequenos em casa’”.

“Sempre supunham que eu não tivesse nada para fazer fora do meu horário de trabalho normal, das 9h às 17h, que eu não tinha nenhum compromisso social ou pessoal”, disse Sophie.

Uma leitora chamada Wen contou que quando era produtora de um jornal na TV e era solteira, a expectativa da emissora é que ela nunca folgasse no Dia de Ação de Graças, Natal, 31 de dezembro e Ano Novo, porque suas colegas com marido e filhos “precisavam mais desses dias de folga”.

Quer dizer que se você não tem filhos para sustentar, não merece ter uma vida fora do trabalho? Esse é um estereótipo que frequentemente é fixado às pessoas solteiras, disse DePaulo.

“As pessoas solteiras sem filhos ganham esse estereótipo – porque não têm cônjuge ou filhos, dizem que essas pessoas ‘não têm ninguém’ e não têm vida fora do trabalho”, ela comentou. “Isso não é verdade, evidentemente. As pessoas solteiras têm, sim, pessoas que são importantes para elas, têm compromissos, interesses e coisas às quais se dedicam e que são importantes para elas. Mas nada disso deveria vir ao caso, na realidade – no trabalho, o que importa deve ser o trabalho. Tudo deveria ser feito de modo igualitário – a frequência com que você pode sair do trabalho mais cedo, com que frequência você trabalha nos feriados, a escolha de quando tirar suas férias – de modo que, ao longo do tempo, cada profissional seja tratado igual, de modo que ser casado ou ter filhos não venha ao caso.”

Uma política disse que Janet Napolitano era

Um exemplo que ficou famoso dessa ideia de que os solteiros “não têm vida fora do trabalho” surgiu em 2008, quando Janet Napolitano, que não era casada, foi nomeada secretária da Segurança Interna. Sem saber que havia um microfone ligado ao lado, o ex-governador da Pensilvânia Ed Rendell – casado e com filhos – comentou que Napolitano era uma boa escolha porque a pessoa que ocuparia o cargo “não pode ter vida própria. Janet não tem família. Perfeito. Ela vai poder dedicar literalmente 19 a 20 horas por dia ao trabalho.” Isso apesar de os dois predecessores de Napolitano no cargo terem sido homens, casados e pais, mas que mesmo assim, não se sabe como, encontraram tempo para dar conta do trabalho.

Ser mulher solteira, sem filhos e com trabalho significa que às vezes há pessoas que supõem que se você avança profissionalmente, é apenas porque sua vida fora de sua profissão é vazia, sem sentido. E isso diminui o valor de suas conquistas. É aquela ideia preconcebida insidiosa: “Afinal, o que mais ela poderia estar fazendo que não seja trabalhar o tempo todo?”

Mulheres solteiras e sem filhos recebem menos folgas e flexibilidade de horários 

Quando se supõe de antemão que colegas casadas e colegas com filhos têm responsabilidades mais importantes fora do trabalho, os horários ou as tarefas que ninguém quer podem acabar sendo dados às mulheres solteiras e sem filhos.

“Muitas pessoas acreditam de verdade que o que as pessoas casadas (e as que têm filhos) fazem na vida é mais importante do que qualquer coisa na vida das pessoas solteiras (ou sem filhos)”, disse DePaulo. “Acham que é justo pedir que você fique no trabalho até mais tarde, que você venha trabalhar nos fins de semana ou feriados ou ainda que viaje a trabalho quando ninguém mais quer.”

Em uma pesquisa HuffPost/YouGov feita em agosto com 503 americanas adultas que trabalham em regime de período integral, as entrevistadas responderam se ser casadas ou ter filhos as levava a ganhar tratamento melhor no trabalho. Quarenta e nove das entrevistadas disseram que mulheres com filhos ou sem filhos recebiam tratamento justo, enquanto 55% disseram que casadas ou solteiras eram tratadas igualmente.

Mas uma parcela importante disse que as mães gozam de mais flexibilidade no trabalho. Entre as mulheres para as quais essa pergunta se aplicava ao seu local de trabalho, 28¨disseram que mulheres com filhos têm mais chances de ter flexibilidade em coisas como horários de trabalho.

Às vezes não ter filhos significa ter acesso mais fácil a oportunidades

Para algumas pessoas, não ter filhos pode trazer vantagens profissionais. A doutoranda em biologia oncológica Andrea Casillas disse que o fato de ser solteira e não ter filhos lhe possibilita apresentar suas ideias de pesquisas em reuniões e conferências em outras cidades e lhe abre oportunidades de networking que estão fora do alcance de uma de suas colegas que tem um filho.

“O fato de eu não ter filhos contribui muito para meu sucesso acadêmico e científico”, disse Casillas. “Uma de minhas colegas abandonou o doutorado especificamente porque não conseguia levar os estudos adiante enquanto cuidava do filho, que tinha 7 anos na época. Pouco antes de desistir, ela estava tentando assistir a uma conferência, que seria sua primeira, em outro estado, mas o programa não cobria os custos da viagem dela ou de alguém para cuidar de seu filho, apenas da viagem dela. Ela foi obrigada a faltar à conferência. Pouco depois disso, ela abandonou o programa.”

Quer você seja solteira por opção própria ou não, é muito possível que tenha mais tempo para dedicar ao trabalho e promover sua carreira.

“Recentemente fui indicada para uma bolsa de estudos altamente prestigiosa. Foi uma honra que eu trabalhei muito para merecer. Mesmo assim, sei que o fato de eu não ter filhos contribuiu para me terem escolhido”, contou Casillas. “Não sei o que minha colega e o filho dela estão fazendo agora, mas penso neles com frequência. Ser cientista e ser mãe não deveriam ser coisas que se excluem mutuamente, mas parece que muitas vezes ainda são.”

Mas nem todas as pessoas solteiras e sem filhos têm mais tempo ou menos responsabilidades. E todas as mulheres enfrentam um desafio singular no trabalho: a chamada “penalidade da maternidade”, que já foi fartamente documentada. Não importa que você não seja mãe: pesquisas constatam que mulheres que não são mães enfrentam a mesma discriminação de gênero, sendo preteridas quando aparecem oportunidades para avançar na carreira, porque os chefes presumem que elas vão se casar um dia, engravidar e deixar a força de trabalho.

Numa sociedade em que a mulher ainda é vista como mãe em primeiro lugar e profissional em segundo, talvez seja mais fácil entender as ambições das mulheres solteiras e sem filhos. Citando os exemplos de mulheres poderosas, solteiras e sem filhos como a magnata da mídia Oprah Winfrey e as juizas da Suprema Corte americana Sonia Sotomayor e Elena Kagan, a jornalista Rebecca Traister, em seu livro “All the Single Ladies: Unmarried Woman and the Rise of an Independent Nation”, ressalta que o poder e as posições incomuns ocupadas por essas mulheres fazem sentido porque “sim, estruturalmente e estrategicamente, elas não foram obrigadas a dividir sua atenção educacional e profissional, mas também porque, sem família, foi possível supor que a vida delas fosse vazia, tirando o trabalho”.

Mas ser solteira e sem filhos pode acabar lhe custando dinheiro no longo prazo

Ser solteira também pode incluir desvantagens financeiras. A pesquisa do HuffPost revelou que as mulheres casadas tendem a dizer, mais que as solteiras, que o status de casada beneficiou sua carreira.

Alguns chefes encaram o fato de uma funcionária ter filhos como motivo para lhe dar um aumento. Quando Kathy Hamman era funcionária pública federal, ela conta que não recebia os mesmos aumentos que sua irmã, que tinha o mesmo cargo, mas tinha filhos. “Depois de um ano, ela tinha recebido dois aumentos. Fui procurar a chefia. Me disseram: ‘Ela tem filhos para sustentar e você não tem’.”

E há o custo institucional de ser solteira na América. No direito americano, ser casada ainda é vista como algo socialmente positivo e desejável; há mais de mil leis federais que privilegiam os casados. Os solteiros contam com menos proteções financeiras. Quem é casado pode incluir seu cônjuge em seu plano de saúde da empresa. Se você é casada, pode poupar milhares de dólares em imposto de renda declarando em conjunto com seu cônjuge. Se você é casada, pode incluir duas pessoas em sua IRA (conta de aposentadoria individual), mas, se é solteira, ninguém mais pode depositar em sua IRA se você perder sem emprego.

Quando uma pessoa casada morre, sua família pode receber seus benefícios da Seguridade Social. Mas no caso da morte de uma pessoa solteira e sem filhos, seus benefícios voltam para o sistema –não são encaminhados às pessoas importantes em sua vida que poderiam se beneficiar deles. Como detalhou Stephanie Coontz em artigo do “New York Times” em 2007 em que argumentou contra esses privilégios dos casados, “uma mulher que esteve casada por apenas nove meses recebe os benefícios de Seguridade Social de seu marido quando este morre. Mas uma mulher que viveu com um homem por 19 anos sem ser casada fica sem nenhum apoio do governo, mesmo que a presença dela o tenha ajudado a manter um emprego em tempo integral e pagar os impostos da Seguridade Social.”

Há também a questão do tempo perdido, que pode levar a salários perdidos. Pela Lei da Família e das Licenças Médicas, trabalhadores qualificados têm direito a licença para cuidar de um cônjuge, filho ou pai, com direito a recuperar seu emprego depois. Mas se você é uma pessoa solteira com uma pessoa importante na sua vida que não se enquadra nas definições limitadas de família, azar seu.

E é claro que ser solteira e sem filhos não quer dizer que você seja isenta de precisar cuidar de seus pais ou outros. Jennifer, por exsemplo, disse que quando precisou faltar ao trabalho para atender a alguma emergência familiar, seus chefes nunca negaram o pedido, mas que isso não foi tratado com a mesma naturalidade que os casos de colegas que faltaram por causa dos filhos. Quando Jennifer precisou faltar um dia para dar assistência a seus pais, que têm deficiências físicas, lhe disseram que a falta seria descontada de suas férias.

As pessoas solteiras não deveriam ser obrigadas a se queixar do tratamento desigual

Quando você fala com seu chefe ou colega de trabalho que recebe tratamento desigual por ser solteira, o resultado pode ser o contrário do que você gostaria – isso porque, se você diz que está sendo tratada injustamente no trabalho, as pessoas podem se sentir ameaçadas. “Elas provavelmente se veem como pessoas de cabeça aberta, que não discriminam ninguém, e você de certo modo está sugerindo que elas discriminam, sim”, explicou DePaulo. “Em situações desse tipo, as pessoas às vezes adotam atitude muito defensiva. Às vezes elas reagem insultando você (te dizendo que você é uma pessoa amargurada, por exemplo), em vez de encarar o problema de frente.”

Se você é gerente, o importante não é pensar quais dos seus funcionários encaram mais dificuldades na vida, mas disponibilizar folgas e benefícios iguais para todos. Um avanço fundamental é reconhecer que funcionários solteiros e sem filhos são pessoas que merecem os mesmos benefícios que funcionários casados e com filhos recebem no trabalho.

“O melhor é que não sejam solteiros individualmente que tentem lidar com esses problemas”, disse DePaulo. “É preciso que todo o mundo saiba que é errado pedir a funcionários solteiros que cumpram horários mais longos ou assumam tarefas mais onerosas, simplesmente por serem solteiros.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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